Português – O Papel das mulheres na ISKCON


Queridas devotas e devotos,

 

Depois de falar sobre os aspectos externos indianos como um impedimento para a pregação ocidental, eu gostaria de levantar outra causa dos problemas da ISKCON no Ocidente, uma causa que é pelo menos tão importante quanto essa, senão mais importante ainda: o tratamento dado às mulheres. Discutirei que a supressão das mulheres na ISKCON tem sido uma das maiores causas do colapso, e contínua estagnação, da missão ocidental.

Prabhupada me escreveu uma vez que “O segredo para manter os devotos animados é sempre dar-lhes um novo desafio.” Em resumo, durante a maior parte de sua existência, a ISKCON sempre negou a muitas mulheres essa oportunidade essencial. Como membro da ISKCON, mas também como observador da ISKCON por mais de 50 anos, eu tenho visto centenas de mulheres inteligentes, dinâmicas e dedicadas se juntarem ao movimento e depois abandonarem a ISKCON, ou se mover em suas órbitas externas fora da missão central, porque a ISKCON não lhes oferece o que o próprio Krishna lhes dá na Gītā: a oportunidade essencial de ocupar plenamente sua natureza e habilidades no serviço a Ele.

Kṛṣṇa declara explicitamente duas vezes na Gītā que deve-se cumprir seu próprio dever.

 

3.35 É melhor realizar imperfeitamente o próprio dharma em vez de executar habilmente o dever de outrem. Na verdade, perecer no próprio dever é melhor porque cumprir o dever do outro é (ainda mais) perigoso. Imagine que cumprir um dever que não nasce da própria natureza é mais perigoso do que a própria morte!

18:47 Aqui, Kṛṣṇa primeiro repete o mesmo conselho que em 3.35: “É melhor executar imperfeitamente o próprio dharma, em vez de executar habilmente o dever de outrem.” Mas então ele acrescenta um esclarecimento fundamental: “Ao realizar o trabalho imposto [niyata]  por sua própria natureza, não se incorre em pecado”.

 

Assim, o dever é determinado pela natureza individual, não necessariamente pelo gênero. É perigoso exigir que uma Vaiṣnavī negue sua propensão ao serviço construtivo, já que Kṛṣṇa afirma em 3.33 que: “Até mesmo a pessoa sábia age de acordo com sua natureza. Os seres vivos seguem sua natureza. O que a repressão fará? Note que a palavra “pessoa sábia” aqui “é jñānavān, a mesma palavra usada em 7.19 para descrever uma alma rendida a Kṛṣṇa.

O elo causal entre natureza e dever é fortemente enfatizado outra vez no capítulo 18, onde Kṛṣṇa define os quatro varṇas:

 

18.41 Os deveres dos quatro varṇas são determinados pelas qualidades de cada um (a) e nascem de sua própria natureza. (sva-bhāva-ja)

18:42 Os deveres de brāhmaṇas nascem de sua própria natureza.

18:43 Os deveres de  kṣatriyas nascem de sua própria natureza.

18.44 Os deveres de vaiśyas e śūdras nascem de sua própria natureza.

18.45 Uma pessoa alcança a perfeição através da dedicação ao seu próprio dever (nascido de sua natureza).

 

Portanto, negar a uma Vaiṣṇavī a oportunidade plena de servir de acordo com sua própria natureza e habilidade é cometer violência contra ela. Como é cruelmente irônico que, em nome “proteger” as mulheres, muitas mulheres foram sistematicamente feridas.

 

Agora que a ISKCON tem, mais ou menos, mulheres autorizadas a servir como gurus, com algumas condições bastante humilhantes, o simples fato é que há pouquíssimas mulheres que se apresentam para fazer esse serviço. Só Deus sabe quantas almas brilhantes e dedicadas se distanciaram da ISKCON, ou simplesmente perderam seu entusiasmo, devido à repressão sistemática.

Para completar o círculo lógico aqui, repito que Prabhupada me escreveu que o segredo para manter os (as) devotos (as) entusiasmados (as) é sempre dar-lhes um novo desafio. Deduz-se  que sem a possibilidade de tal desafio, de acordo com a própria natureza, é muito difícil manter o entusiasmo. E sem entusiasmo na vida espiritual, o gosto se perde.

Prabhupada insistiu em fazer ajustes no Ocidente porque se as mulheres não vierem, os homens não virão. O óbvio corolário: quando as mulheres se vão os homens se vão, mesmo que as mulheres e seus homens estejam simplesmente deixando a arena da pregação ativa..

O ponto final: estou inspirado e animado para ver todas as extraordinárias Vaiṣṇavīs que se apresentam com alegria para servir Kṛṣṇa West e, claro, outros projetos da ISKCON. Acho que isso é porque  KW e outros projetos oferecem às mulheres todas as oportunidades de liderar, quando liderar é sua verdadeira natureza. A menos que encorajemos totalmente as Vaiṣṇavīs  sinceras e talentosas a servir de acordo com suas habilidades, e não de acordo com nossos preconceitos corporais, a ISKCON tem muito pouca chance de crescer no Ocidente.

 

Com os melhores votos,

Hridayananda dasa Goswami